Sobre o perdão

Foto: Arquivo pessoal

Eu me perdôo, só por hoje.

Caravaggio


Saint Jerome in Meditation
Óleo sobre tela


Sempre gostei das obras de Caravaggio, principalmente do contraste entre claro e escuro, ainda mais quando as cores fortes se mostram cada vez mais vivas.
As vezes medito como são Jerônimo, sei que a pele ficará flácida e a carne perderá seu tônus. Não sou santo, muito menos católico, mas sempre há algo que irá ser comum a nós por enquanto.
Dizem que a madrugada é a hora da morte, não acredito muito. Deixo as reflexões para Saint Jerome, que reflita sobre a martirização e suas mortificações.

Jazz



Fim de semana, festival de jazz na Torre Malakoff. Esposa, irmão, amigos, música boa....
Já não desenho, nem fotografo a meses, e nem tenho tido muita energia pra nada. Leio, leio e não saio do lugar. Sou um mal-agradecido.
Ouço trompetes, enquanto canto no chuveiro. Ah que calor!
Ainda prefiro sentar na rede da varanda e tomar meu café quando acordo sem sono, sentindo o sol chegar lá pelas quatro e meia, cinco horas.
Consigo pensar em nada, nessas horas um gole de café. Vazio, e sinto o frio da madrugada ir embora. Fico com sono logo, logo.
Volto a dormir e ainda escuto trompetes distantes.

Trilha Sonora (escute enquanto lê):
So What – Miles Davis e John Coltrane

Domingo


Foto (arquivo pessoal)


Domingo de dia claro, levemente quente...
Talvez eu dê uma caminhada pelo pequeno lado da universidade que fica aqui ao lado. Estava agora pouco escutando Chet Baker, um domingo daqueles que se lê em livros antigos, sobre coisas antigas.
Lembrei-me da viagem que fiz a muitos anos com meus amigos para meu primeiro congresso, vasculhando as fotos do computador. Tão jovem, sem a barba a comer o rosto, com os cabelos ainda grandes, do passeio até o farol para ver o por do sol, com os filhotes de cachorro correndo sobre a grama.
A boina já não me serve mais, mas ainda tenho essa terrível mania de me espantar com as coisas cotidianas e ser tragado pelo vento que passa furtivamente, levando o vapor que sai da minha caneca de café forte e deixa a minha sala com seu cheiro.

Trilha sonora:
Chet Baker - I Get Along Without You Very Well (cover by Tempestade)



O dia




Se por vezes demoro a escrever, talvez seja porque o tempo agora me flui em direções diferentes, dobrando a uma vontade que independe da minha. O dia bem poderia ter sido hoje, ou ontem, ou a mais de uma semana, como o fora.
O dia em que pude compartilhar com queridos amigos um quarto do século de uma história que continua a se transformar perenemente. Uma história de dias e mais dias, de histórias de tardes quentes, noites frias, de todas as estações do ano.
Do velho casarão underground que íamos para ouvir músicas dos anos 80 e dançar até a noite clarear, do velho bar demolido, para onde íamos quando o bairro da cidade velha não oferecia mais nada além da rosa dos ventos, que marcava o marco zero da cidade, no píer de frente para os arrecifes de onde surgia o sol, não tenho lembranças melhores do que as que tenho com as pessoas que compartilharam desses momentos.
Minha tendência a me afastar e me aproximar varia tanto quanto meu expandir e meu retrair para o mundo, tentando em vão encontrar os amigos que se desgarraram e dos quais me desgarrei nos dias de acontecimentos durante os anos de dias que passavam despercebidos enquanto vivíamos, cada um, nossas vidas.
Atrapalhado em dar conta dos amigos distantes, dos próximos, de tentar traduzir o último e-mail de uma amiga distante e respondê-lo a altura, da minha amiga libriana que mora distante e cujos textos, que não mais escreve, me lembravam Clarice Lispector, da garotinha dos olhos verdes que começa a ter seu primeiro dentinho, do senhor e da senhora que me acolheram, dos parentes espalhados pelo país, da minha família que se estrutura dia após dia, do meu irmão mais novo que caminha sozinhos seus dias, em meio às contas de água, luz, cartões, a cama que quebrou, as planilhas de orçamento, a faxina da semana que vem, aos livros espalhados pela casa e os pratos do almoço que ficaram na pia para o outro dia.

E ainda estou lá a dançar com Carol’s, Pel e Nicolas, enquanto meu irmão está sentado no bar dormindo e uma amiga da faculdade aproveita o vento frio das ruas estreitas do velho bairro com seu namorado.

E ainda estou aqui, tomando meu café forte, pausando em cada palavra, pausando em cada dia, dobrando o espaço entre os dias, onde presente, passado e futuro são uma coisa só.

Trilha sonora:
Suedhead - Morrissey (cover by Tempestade)

Água corrente



As vezes esqueço que moro perto do mar, acabo passando meses sem vê-lo, não que não goste, mas acabo tendo mais afinidade com o céu. Não a toa meu signo é de ar.
Na verdade eu fujo mais do sol escaldante, já tenho um bronzeado natural que poderia levar até o ártico sem desbotar nada.
Uma vez, conversando com um grande amigo, enquanto caminhávamos pela orla, ele me perguntou se eu pudesse escolher o que eu seria: o mar ou o céu? Prontamente respondi que seria o céu, olhando as nuvens que cobriam parcialmente o sol. Ele havia me dito que gostaria de ser o mar.
Quando perguntei o porquê dele querer ser o mar, então olhou para ele e disse:

- Imagina que debaixo dessa água deve ter um monte de vida, animais, plantas, toneladas, milhares. Um mar totalmente vivo.

O céu nunca tinha me parecido tão vazio.

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Hoje me deu vontade de traduzir Essa música do Belle & Sebastian. Na verdade ela estava me vindo a mente o tempo todo enquanto escrevia...

"Descanse seus pés no mar

Descanse seus pés no mar
Meu amor, é o melhor lugar para estar
Tire seus sapatos e dobre seus dedos
Vou congelar esse momento na memória
Problemas vêm e vão
O problema que conhecíamos
Continuará conosco até envelhecermos
Continuará conosco até que alguém decida partir
Decida partir

Com prudência, sem arrependimentos, eu faço outro
sanduíche
Me empanturro, eu sei que as coisas estão te
incomodando
Mas o que posso fazer?
De repente, sem aviso
Em uma pálida manhã azul
Você decide que seu tempo está acabando
Uma escolha consciente para se deixar pendurado
Suspenso no ar
É uma emergência
Não há mais \"aguarde e verá\"

Talvez se eu fechar os olhos
Os problemas se partirão entre nós
Pessoas vêm e vão
Você está procurando no rosto de todos
Por um pequeno cintilo de verdade
Para o que você está passando, meu garoto
Eu o deixei seco
Os sinais eram claros de que você não ia a lugar algum
Lugar algum
Seguro para uma queda
Seguro para uma queda
Lugar algum
Lugar algum
Seguro para uma queda
Está tudo dando errado

Mais tarde, enquanto caminhava para casa
A lavoura estava à mostra e órion também
Eu pude ver a casa onde você vivia
Eu pude ver a casa onde você deu
Todo seu tempo e sanidade às pessoas
E então esperou para que elas o reconhecessem
Elas falavam uma de cada vez
Mas os olhos delas passavam por você
Por você
Quem está vendo você?
Quem está vendo você?"



Trilha Sonora:

Belle & Sebastian: Ease You Feet In The See (cover by Tempestade)

Spring's come



A primavera começará em pouco tempo.
Embora o outono seja a estação em que eu me sinta mais a vontade, poucos sabem que nasci na primavera. Ambas não deixam de ser fases de transição, eu mesmo sempre fui dado as transições, às vezes um pouco intransitivo.
Cantarolo uma velha canção do Belle & Sebastian e tento esquecer o calor causticante da tarde. Minha mente está vazia e tenho um livro de 500 páginas pela frente, provavelmente virão novidades nessa primavera, minha mente está vazia por hoje.
Penso que não há porque escrever quando se está vazio, as palavras soam vazias de estruturas e significados. Estou ficando velho, e já se acumulam folhas de outono e flores de primavera durante as décadas passadas.


“Summer in winter
Winter in springtime
You heard the birds sing
Everything will be fine”

Trilha sonora:
Belle & Sebastian - A Summer Wasting (cover)

Tardes Quentes de Outono

"A história que ela contava me lembravam tardes quentes de outono..."
Esteja convidado a ser parte disso que já não sou eu a muitos anos.
O outono sempre chega e as folhas caem, como caem nossas máscaras quando amadurecemos, somente para mais tarde outras novas surgirem...

Seja bem vindo.

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Tempestade
Um personagem de antigas histórias, tão antigas quanto ele se chamava DW. Um leitor inveterado e, se dada a oportunidade, um contador de histórias.
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"Recordações da casa dos mortos" - Dostoievski